Pai Francelino de Shapanan
História de vida de Toy Vodunnon Daho Laila Francelino de Shapanan

Em 1964, Francelino, um jovem paraense de 14 anos, nascido na Ilha de
Marajó, foi iniciado para vodum no tambor-de-mina na cidade de Belém,
capital do Pará, por Mãe Joana de Xapanã, originária do tambor-de-mina de
São Luís. Pai Francelino tem como seu vodum de cabeça o mesmo de sua mãe,
Xapanã, divindade ligada às doenças e sua cura. Seu segundo vodum é Sobô,
divindade do raio. A encantada Dona Jarina é o guia que mais tarde será a
dona de sua casa em São Paulo, casa governada pela cabocla turca Dona
Mariana, que presidirá a maior parte dos ritos no terreiro paulista. Mãe
Joana celebrou as obrigações de Francelino até a do sétimo ano.
Com a morte de Dona Joana, Francelino foi adotado por Pai Jorge Itacy, do
Terreiro de Iemanjá, de São Luís do Maranhão. Pai Jorge foi iniciado em 1956
no Terreiro do Egito e sua casa tem grande prestígio. Com Pai Jorge, em 1978
e 1985, Francelino deu as obrigações de 14 e 21 anos.
Em 1973, Francelino saiu de Belém e mudou-se para o Rio de Janeiro,
transferido a pedido pela SUDAM para o escritório do Rio. Entre 1978 e 1980
residiu em Curitiba, Paraná, onde iniciou uma casa-de-santo, mas foi em São
Paulo que acabou se fixando. Em São Paulo, em 1977, estabeleceu-se como Tói
Vodunnon, isto é, pai-de-vodum ou pai-de-santo em língua ritual jeje, mas
continuou a residir em Curitiba até 1980, quando se mudou definitivamente.
Seu terreiro recebeu o nome de Casa das Minas de Tóia Jarina, em homenagem
ao seu primeiro guia espiritual, Tóia Jarina, ou Mãe Jarina, a jovem
princesa encantada da Família do Lençol, que Francelino recebeu quando tinha
12 anos de idade. Assim os deuses africanos do Daomé aclimatados em São Luís
do Maranhão, partindo de Belém do Pará, vieram a se estabelecer em São
Paulo.
O terreiro de Dona Jarina, que se define como casa de culto mina-jeje,
mina-nagô e encantaria, esteve em vários endereços (bairros de Casa Palma,
Vila Campestre, Jardim Luso) até instalar-se no Jardim Rubilene em 1983,
onde permaneceu por dez anos. Em 1993 mudou-se para a Rua Itália, 462, no
bairro Jardim das Nações, município de Diadema, com instalações
especialmente construídas para o terreiro, onde se encontra até o presente.
A exemplo dos candomblés, as instalações físicas do terreiro lembram um
compound africano, com um barracão central para as danças, pequenas casas
reservadas para as diferentes famílias de divindades (onde os assentamentos
das divindades são mantidos fora do alcance da curiosidade dos
não-iniciados), uma pequena capela com altar católico e uma construção com
cozinha, sala de estar e quartos para dormir e vestir, além das dependências
em que os iniciados ficam recolhidos durante suas obrigações, a clausura. Há
também o quarto de Legba, o quarto reservado ao culto dos antepassados da
casa e um pequeno jardim em que se cultivam plantas sagradas.
Em São Paulo Francelino iniciou seus filhos, ensinou aos tocadores de tambor
os ritmos da mina, construiu uma grande rede de clientes, estabelecendo
contato com lideranças da umbanda e de várias nações de candomblé. É
presidente em segundo mandato da Coordenação Paulista do Intecab (Instituto
Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira), instituição que reúne as
nações de candomblé e umbanda, milita em federações de umbanda e está
presente em rádios e publicações religiosas. Com o tempo tornou-se
personalidade conhecida e respeitada entre o povo-de-santo paulista.
Conheça um trabalho sobre Pai Francelino de
Shapanan
Nas pegadas dos voduns
Um terreiro de tambor-de-mina em São Paulo
Texto de Reginaldo Prandi