Nas pegadas dos voduns
Um terreiro de tambor-de-mina em São Paulo
Texto de Reginaldo Prandi - Universidade de São Paulo - Publicado na revista Afro-Ásia, Salvador, nº 19/20, pp. 109-133, 1997.

Introdução
As mais diversas modalidades das religiões afro-brasileiras, senão todas
elas, podem ser encontradas na São Paulo de hoje. Provenientes das mais
diferentes regiões do Brasil, onde se originaram a partir da herança
cultural do escravo, essas variantes religiosas convivem e disputam entre
si, e com as demais religiões da metrópole paulista, adeptos, clientes e
reconhecimento social. Mas a diversidade religiosa afro-brasileira em São
Paulo é recente, não tendo mais que trinta anos.
A umbanda, de seu nascimento no primeiro quartel deste século até os anos
60, foi a grande e praticamente única religião afro-brasileira em São Paulo.
Seu surgimento e expansão estão historicamente associados à industrialização
do Sudeste e à formação das grandes cidades brasileiras neste século,
enquanto o candomblé, a partir do qual a umbanda constituiu-se em contato
com o kardecismo, mantinha-se restrito aos seus territórios originais,
sobretudo a Bahia e outros Estados em que é conhecido por denominações
locais: o xangô em Pernambuco e o batuque no Rio Grande do Sul, além da
macumba no Rio de Janeiro, estreitamente ligada ao candomblé da Bahia.
Candomblé, xangô e batuque são variantes rituais da religião dos orixás no
Brasil. A religião dos orixás, divindades da cultura iorubá ou nagô,
consolidou-se em território brasileiro entre os meados do século passado e o
início do século atual como expressão cultural de escravos, negros livres e
seus descendentes. A umbanda também cultua os orixás, mas seu panteão foi
muito ampliado com entidades que são espíritos desencarnados, os chamados
caboclos, pretos velhos, boiadeiros, baianos, marinheiros e outros.
Nos anos 60, quando a umbanda já se consolidara em São Paulo, o candomblé
trazido por migrantes nordestinos foi sendo introduzido na cidade e se
instalando rapidamente em seu novo território. Muitas casas de candomblé
importantes de Salvador abriram filiais em São Paulo; líderes religiosos de
origem baiana anteriormente estabelecidos no Rio de Janeiro mudaram-se ou
passaram a permanecer em São Paulo parte do tempo. Não tardou muito para que
a umbanda perdesse sua hegemonia como a religião afro-brasileira da
metrópole industrial. Assim como a umbanda, que já se formou como religião
universal, o candomblé no Sudeste deixou de ter o caráter de religião
exclusiva de uma população de afro-descendentes, religião étnica, para vir a
ser uma religião aberta a todos, não importando a origem racial.
Além dos orixás, outras divindades foram trazidas da África pelos escravos.
Os inquices dos povos bantos, praticamente esquecidos e substituídos pelos
orixás nagôs nos candomblés bantos, e os voduns originários de povos
euê-fom, de região do antigo Daomé, hoje república do Benim, designados
jejes no Brasil. O culto aos voduns sobreviveu na Bahia e no Maranhão. Em
Salvador e cidades do Recôncavo, a religião dos voduns é denominada
candomblé jeje-mahim. No Maranhão recebeu o nome de tambor-de-mina. Na Bahia
é pequeno o número de grupos de culto jeje em comparação com o número de
casas de orixá. No Maranhão os voduns estão presentes em praticamente todas
as casas de culto afro-brasileiro e os orixás ali cultuados nas casas de
vodum são igualmente chamados de voduns, às vezes com a referência de que se
trata de um vodum nagô e não jeje.
Os orixás tornaram-se bastante populares em São Paulo, como de resto em
quase todo o Brasil, e sua popularidade pode ser medida por sua presença
expressiva na cultura popular brasileira (incluindo literatura, teatro,
cinema, telenovela, música popular, carnaval, culinária), mas os voduns são
praticamente desconhecidos nessa cidade, onde mesmo os adeptos de religiões
afro-brasileiras pouco sabem desses deuses tão cultuados em São Luís.
Em 1977, um jovem líder da religião dos voduns, Francelino Vasconcelos
Ferreira, ou Francelino de Xapanã, como prefere ser chamado, trouxe para São
Paulo o culto dos voduns tal como se constituiu em São Luís do Maranhão.
Vinte ano depois, a religião dos voduns conta com a casa já bem consolidada
de Pai Francelino, a Casa das Minas de Tóia Jarina, e com vários terreiros
dela derivados. A religião dos voduns assim vai se espalhando por São Paulo
e, de São Paulo, para paragens mais além.
Voduns do Maranhão
Em São Luís e outras cidades do Maranhão, a religião dos voduns recebeu o
nome de tambor-de-mina, alusão à presença constante dos tambores nos rituais
e aos escravos minas, como eram ali designados os negros sudaneses. Trata-se
de religião iniciática e sacrificial, em que os sacerdotes são ritualmente
preparados para "receber" as divindades em transe. As entidades
manifestadas, que podem ser voduns ou encantados (espíritos), vêm à terra
para dançar em cerimônias públicas denominadas tambor. As entidades são
assentadas (fixadas em artefatos sacros) e recebem sacrifício, com oferta de
animais, comidas, bebidas e outros presentes. Segundo tradição africana que
se manteve no Brasil, cada humano pertence a um vodum, sendo para ele
ritualmente consagrado em cerimônias iniciáticas, como ocorre no candomblé
dos orixás. O tambor-de-mina, assim como outras modalidades religiosas
afro-brasileiras, apresenta forte sincretismo com o catolicismo e suas
festas têm um calendário colado ao da Igreja Católica. No Maranhão, festas e
folguedos populares de caráter profano, como o bumba-meu-boi e o
tambor-de-crioula estão muito associados ao tambor-de-mina.
Dois dos antigos terreiros de São Luís, fundados por africanas em meados do
século passado, sobreviveram até os dias de hoje e constituem a matriz
cultural do tambor-de-mina: a Casa Grande das Minas e a Casa de Nagô.
A Casa das Minas, de cultura jeje, é um terreiro de culto exclusivo aos
voduns, os deuses jejes, os quais, entretanto, hospedam alguns voduns nagôs,
ou orixás, não havendo culto a encantados ou caboclos. Seu panteão é
bastante numeroso e bem organizado, sendo os voduns reunidos em famílias.
Tendo alcançado enorme prestígio, a Casa das Minas encontra-se hoje em
processo de extinção, pois há muitos anos não se faz iniciação de novas
dançantes, ou vodunsi, nomes dados às devotas que recebem os voduns em
transe. As dançantes remanescentes são hoje cerca de seis ou sete mulheres
já idosas e mesmo elas não contam com iniciação completa. Nenhum outro
terreiro se originou diretamente dessa casa, mas sua influência no
tambor-de-mina é enorme, havendo estudos detalhados sobre seus deuses e
ritos, merecendo suas sacerdotisas grande respeito na sociedade local.
A Casa de Nagô, de origem iorubá, cultua voduns, orixás e encantados ou
caboclos, que são espíritos de reis, nobres, índios, turcos etc. Desta casa
originaram-se muitos terreiros, proliferando-se por toda São Luís e outras
localidades da região um modelo de tambor-de-mina bastante baseado nessa
concepção religiosa de culto a voduns e encantados, encantados que em muitos
terreiros têm o mesmo status de divindade dos voduns, com eles se misturando
nos ritos em pé de igualdade.
Entre outras casas de mina de São Luís, igualmente antigas, destacam-se o
Terreiro do Egito e o Terreiro de Manuel Teu Santo, os quais deram origem a
cerca de vinte terreiros, multiplicados em muitos outros. Do Terreiro do
Egito originou-se o Terreiro de Iemanjá, que tem papel destacado na história
do tambor-de-mina em São Paulo, pois seu fundador, Pai Jorge Itacy, é o
pai-de-santo de Francelino de Xapanã, pelas mãos de quem os voduns do
Maranhão vieram para São Paulo.
O panteão da Casa das Minas
Embora a Casa das Minas não tenha originado outras casas de culto, sua
estrutura e panteão tem sido um modelo para outras casas.
Os voduns, deuses do povo euê-fom, são forças da natureza e antepassados
humanos divinizados. Os voduns cultuados na Casa das Minas estão agrupados
nas famílias de Davice, Dambirá, Savaluno e Queviossô.
Alguns voduns jovens chamados toqüéns ou toqüenos cumprem a função de guias,
mensageiros, ajudantes dos outros voduns. São eles que "vêm" na frente e
chamam os outros. Têm cerca de quinze anos de idade, podendo ser masculinos
ou femininos, pertencendo a maioria à família de Davice. Nos clãs de
Quevioçô e Dambirá são os voduns mais jovens que desempenham esse papel.
Além dos voduns, fazem parte do panteão da Casa das Minas as tobóssis,
divindades infantis femininas, consideradas filhas dos voduns, recebidas
pelas dançantes com iniciação plena, as chamadas vodúnsi-gonjaí. As
princesas meninas não vêm mais na Casa das Minas. Com a morte das últimas
vodúnsi-gonjaí, parte do processo de iniciação se perdeu, de modo que as
dançantes remanescentes não tiveram iniciação no grau de gonjaí, de
senioridade. E as tobóssis não vieram mais na Casa das Minas. Diferentemente
dos voduns, que podem manifestar-se em diferentes adeptos, a tobóssi, na
Casa das Minas, é considerada entidade única, exclusiva de sua
vodúnsi-gonjaí, e que desaparece com a morte da dançante que a recebia, não
se incorporando depois em mais ninguém.
Os voduns e suas famílias
Conforme estudos exaustivos de Sérgio Ferretti, assim se configura o panteão
dos voduns na Casa das Minas, família por família:
A Família de Davice reúne os voduns da família real do Abomey, no antigo
Daomé, atual Benim, e é composta dos seguintes voduns:
Nochê Naê, Mãe Naê - a vodum mais velha e ancestral mítica do clã.
Zomadônu - o dono da Casa das Minas e chefe de uma das linhagens da família
de Davice. Rei e pai dos toqüéns Toçá e Tocé (gêmeos), Jagoboroçu (Boçu) e
Apoji. Zomadônu é filho de Acoicinacaba.
Acoicinacaba (Coicinacaba) - pai de Zomadônu e filho de Dadarrô.
Dadarrô - chefe da primeira linhagem da família; vodum mais velho da família
de Davice. Casado com Naedona e irmão de Acoicinacaba, portanto, tio de
Zomadônu. É pai de Sepazim, Doçu, Bedigá, Nanim e Apojevó. Representa o
governo e é protetor dos homens de dinheiro.
Naedona (Naiadona ou Naegongom) - esposa de Dadarrô e mãe de Sepazim, Doçu,
Bedigá, Nanim e Apojevó.
Arronoviçavá - irmão de Naedona, é cambinda (mas considerado jeje por outras
casas).
Sepazim - princesa casada com Daco-Donu, com quem teve um filho chamado Tói
Daco, que é toqüém.
Daco-Donu - marido de Sepazim, pai de Daco.
Daco - filho de Sepazim e Daco-Donu. Toqüém.
Doçu (Doçu-Agajá, Maçon, Huntó ou Bogueçá) - jovem cavaleiro, boêmio, poeta,
compositor e tocador. Pai dos três toqüéns Doçupé, Nochê Decé e Nochê
Acuevi.
Doçupé - filho de Doçu. Toqüém.
Nochê Decé - filha de Doçu. Toqüém.
Nochê Acuevi - filha de Doçu. Toqüém.
Bedigá - também cavaleiro como o irmão Doçu. Aceitou a coroa do pai Dadarrô
que Doçu tinha recusado. Protetor dos governantes, advogados e juízes.
Apojevó - filho mais novo de Dadarrô. Toqüém.
Nochê Nanim (Ananim) - filha adotiva de Dadarrô, criou Daco (neto de
Dadarrô) e Apojevó (seu irmão mais novo).
Família de Savaluno. É uma família de voduns amigos da família de Davice.
Não são jeje e são hóspedes na Casa das Minas.
Topa - um vodum solitário, o qual tem mais dois irmãos, Agongono e Zacá.
Zacá (Azacá) - vodum caçador.
Agongono - vodum que se relaciona com os astros; amigo de Zomadônu e pai de
Jotim.
Jotim - filho de Agongono. Toqüém.
Família de Dambirá. Reúne os voduns da terra, ligados às doenças e às curas.
Acóssi Sapatá (Acóssi, Acossapatá ou Odan) - curador e cientista, conhece o
remédio para todas as doenças. Ficou doente também por tratar os enfermos.
Pai de Lepom, Poliboji, Borutoi, Bogono, Alogué, Boça, Boçucó e dos gêmeos
Roeju e Aboju.
Azile - irmão de Acóssi. Também é doente.
Azonce (Azonço, Agonço ou Dambirá-Agonço) - irmão de Acóssi e Azile, o único
que não é doente. É velho e é nagô. Pai de Euá.
Euá - filha de Azonce, também é nagô.
Lepom - filho mais velho de Acóssi. Vodum velho.
Poliboji - também vodum velho.
Borutoi (Borotoe ou Abatotoe) - vodum velho. Usa bengala.
Bogono (Bogon ou Bagolo) - diz-se que se transforma em sapo.
Alogué - diz-se que é aleijado.
Boça (Boçalabê) - mocinha alegre, está sempre com o irmão Boçucó. Toqüém.
Boçucó - outro dos irmãos mais novos. Toqüém.
Roeju e Aboju - irmãos gêmeos. Ambos toqüéns.
Família de Quevioçô. É família de voduns considerados nagôs, embora não
sejam orixás (entre eles, apenas Nanã é cultuada nos candomblés de orixá,
tendo sido incorporada ao panteão iorubá desde a África, assim como seus
filhos Omulu e Oxumarê). Quase todos são mudos para evitar que revelem os
segredos dos nagôs ao pessoal da Casa das Minas, onde são hóspedes de
Zomadônu.
Nanã (Nanã Biocã, Nanã Burucu, Nanã Borocô ou Nanã Borotoi) - diz-se que é
de Davice mas auxilia Quevioçô. É a nagô mais velha, a que trouxe os outros.
Naité (Anaité ou Deguesina) - mulher velha que representa a lua.
Vó Missã é a velha que resolve tudo entre os nagôs.
Nochê Sobô (Sobô Babadi) - considerada mãe de todos os voduns de Quevioçô
(Badé, Lissá, Loco, Ajanutoi, Averequete e Abé). Representa o raio e o
trovão.
Badé (Nenem Quevioçô) - representa o corisco. Equivale a Xangô entre os
nagôs. É mudo e se comunica por sinais.
Lissá - vodum dos astros. Representa o sol. É vadio e anda muito. Também é
mudo.
Loco - representa o vento e a tempestade. Também é mudo.
Ajanutoi - é surdo-mudo e não gosta de crianças.
Abé - vodum dos astros, como Loco. Representa o cometa, uma estrela caída
nas águas do mar. Vodum jovem e mulher. Uma dos poucos do clã que falam. É
toqüém. Corresponde ao orixá Iemanjá dos nagôs.
Averequete (Verequete) - Também fala e é toqüém.
Há dois voduns amigos da família de Quevioçô que tomam conta dos filhos de
Dambirá. São eles:
Ajautó de Aladá (Aladanu) - amigo da casa. Pai de Avrejó. É velho e usa
bengala. Ajuda Acóssi, que é doente. Mora com o povo de Quevioçô. É rei
nagô, protetor dos advogados.
Avrejó - Filho de Ajautó. Toqüém.
Não se pode esquecer de Avievodum, Deus Supremo, a quem os voduns estão
subordinados. Como Olodumare ou Olorum, Deus Supremo dos iorubás, Avievodum
está distante e inalcançável, sendo pouco lembrado pelos devotos e não
merecendo culto específico.
Legba ou Legbara, figura comum nas religiões afro-brasileiras, conhecido em
outras "nações" pelo nome de Exu, é a divindade que assume a função de
trickster ou trapaceiro. Não tem culto organizado na Casa das Minas, onde é
identificado com Satanás, o Mal. Não é aceito como mensageiro, mesmo porque
quem realiza essa função são os toqüéns. Apesar de não ter culto organizado,
verificam-se uns poucos gestos rituais ligados a Legba, como por exemplo,
certos cânticos pedindo para que Legba se afaste, que são cantados ao início
de todo tambor. Ocupa, entretanto, lugar importante em outros terreiros
influentes de São Luís.
Há outros voduns do tambor-de-mina que não aparecem nesta classificação por
não serem referidos na Casa das Minas, mas que são cultuados em outros
terreiros, como Boço Jara, presente na Casa de Nagô.
Encantaria
O culto dos encantados é parte muito importante do tambor-de-mina, estando
ausente apenas da Casa das Minas. Como os voduns, os caboclos ou encantados
estão reunidos em famílias, algumas delas características de certas casas,
como o centenário Terreiro da Turquia, onde caboclos turcos ou mouros são as
entidades mais importantes do culto. O nome caboclo, usado genericamente
para se referir a um encantado, não significa tratar-se de entidade
indígena.
Enquanto as danças para os voduns são realizadas ao som de cânticos
(doutrinas) em língua ritual de origem africana, hoje intraduzível, os
encantados dançam ao som de música cantada em português.
Entre as muitas famílias de encantados destacam-se as seguintes, com os seus
encantados principais, embora possa haver variação de um terreiro a outro.
Família do Lençol. O nome é uma referência à Praia do Lençol, onde se
acredita teria vindo parar o navio do Rei Dom Sebastião, desaparecido na
Batalha de Alcacequibir. É uma família de reis e fidalgos, denominados
encantados gentis. Dona Jarina é a princesa encantada do Lençol que dá nome
ao terreiro de mina de São Paulo, a Casa das Minas de Tóia Jarina. Seus
principais componentes são a) os reis e rainhas: Dom Sebastião, Dom Luís,
Dom Manoel, Dom José Floriano, Dom João Rei das Minas, Dom João Soeira, Dom
Henrique, Dom Carlos, Rainha Bárbara Soeira; b) os príncipes e princesas:
Príncipe Orias, João Príncipe de Oliveira, José Príncipe de Oliveira,
Príncipe Alterado, Príncipe Gelim, Tói Zezinho de Maramadã, Boço Lauro das
Mercês, Tóia Jarina, Princesa Flora, Princesa Luzia, Princesa Rosinha,
Menina do Caidô, Moça Fina de Otá, Princesa Oruana, Princesa Clara, Dona
Maria Antônia, Princesa Linda do Mar, Princesa Barra do Dia; c) os nobres:
Duque Marquês de Pombal, Ricardinho Rei do Mar, Barão de Guaré, Barão de
Anapoli. As cores da família são azul e branco para os encantados femininos
e vermelho para os encantados masculinos.
Família da Turquia. Chefiada pelo Pai Turquia, rei mouro que teria lutado
contra os cristãos. Vindos de terras distantes, chegaram através do mar e
têm origem nobre. Seus principais componentes são: Mãe Douro, Mariana,
Guerreiro de Alexandria, Menino de Léria, Sereno, Japetequara, Tabajara,
Itacolomi, Tapindaré, Jaguarema, Herundina, Balanço, Ubirajara, Maresia,
Mariano, Guapindaia, Mensageiro de Roma, João da Cruz, João de Leme, Menino
do Morro, Juracema, Candeias, Sentinela, Caboclo da Ilha, Flecheiro,
Ubiratã, Caboclinho, Aquilital, Cigano, Rosário, Princesa Floripes,
Jururema, Caboclo do Tumé, Camarão, Guapindaí-Açu, Júpiter, Morro de Areia,
Ribamar, Rochedo, Rosarinho. São encantados guerreiros e sua cantigas falam
de guerra e batalhas no mar. Dizem que nasceram das ondas do mar. Uma
doutrina de Mariana, a cabocla turca que comanda a Casa das Minas de Tóia
Jarina, em São Paulo, diz: "Sou a cabocla Mariana/ Moro nas ondas do mar/
He! faixa encarnada/ Faixa encarnada eu ganhei pra guerrear." Alguns dos
encantados turcos têm nomes que lembram postos de guerra ou de marinheiro,
outros, nomes indígenas. Algumas dessas entidades, como na Família do
Lençol, estão ligadas às narrativas míticas das Cruzadas e das guerras de
Carlos Magno, muito presentes na cultura popular maranhense. São suas cores:
verde, amarelo e vermelho.
Família da Bandeira. Família de guerreiros, caçadorese e pescadores chefiada
por João da Mata Rei da Bandeira, tendo como componentes Caboclo Ita,
Tombacé, Serraria, Princesa Iracema, Princesa Linda, Petioé, Senhora Dantã,
Dandarino, Caboclo do Munir, Espadinha, Araúna, Pirinã, Esperancinha,
Caboclo Maroto, Caçará, Indaê, Araçaji, Olho d'Água, Espadinha, Jandaína,
Abitaquara, Jondiá, Longuinho, Vigonomé, Rica Prenda, Princesa Luzia,
Princesa Linda, Tucuruçá, Beija-Flor, Jatiçara, Pindorama. São encantados
nobres e mestiços. Suas cores: verde, branco, amarelo e vermelho.
Família da Gama. São encantados nobres e orgulhosos. Seu símbolo é uma
balança. São os encantados: Dom Miguel da Gama, Rainha Anadiê, Baliza da
Gama, Boço Sanatiel, Boço da Escama Dourada, Boço do Capim Limão, Gabriel da
Gama, Rafael da Gama, Jadiel, Isadiel, Isaquiel, Dona Idina, Dona Olga da
Gama, Dona Tatiana, Dona Anástácia. Cores: vermelho e branco.
Família de Codó ou da Mata de Codó. Município do interior do Maranhão, Codó
é um importante centro de encantaria do tambor-de-mina. Seus caboclos, em
geral negros, têm como líder Légua-Boji. Segundo Mundicarmo Ferretti, "são
entidades caboclas menos civilizadas e menos nobres, que vivem, geralmente,
em lugares afastados das grandes cidades e pouco conhecidos e que costumam
vir beirando o mar ou igarapés." São eles: Zé Raimundo Boji Buá Sucena
Trindade, Joana Gunça, Maria de Légua, Oscar de Légua, Teresa de Légua,
Francisquinho da Cruz Vermelha, Zé de Légua, Dorinha Boji Buá, Antônio de
Légua, Aderaldo Boji Buá, Expedito de Légua, Lourenço de Légua, Aleixo Boji
Buá, Zeferina de Légua, Pequenininho, Manezinho Buá, Zulmira de Légua,
Mearim, Folha Seca, Maria Rosa, Caboclinho, João de Légua, Joaquinzinho de
Légua, Pedrinho de Légua, Dona Maria José, Coli Maneiro, Martinho,
Miguelzinho Buá, Ademar. Cores: mariscado de Nanã, marrom, verde e vermelho.
Família da Baia. São os caboclos baianos também popularizados através da
umbanda, mas o tambor-de-mina não os reconhece como originários do Estado da
Bahia, mas de uma baia no sentido de acidente geográfico ou de um lugar
desconhecido existente no mundo invisível. São eles: Xica Baiana, Baiano
Grande Constantino Chapéu de Couro, Mané Baiano, Rita de Cássia, Corisco,
Maria do Balaio, Zeferino, Silvino, Baianinho, Zefa e Zé Moreno. Brincalhões
e muito falantes, os baianos mostram-se sensuais e sedutores, às vezes
inconvenintes. Cores: verde, amarelo, vermelho e marrom.
Família de Surrupira. Família de caboclos selvagens, como índios.
Feiticeiros e "quebradores de demanda": Vó Surrupira, Índio Velho,
Surrupirinha do Gangá, Marzagão, Trucoeira, Mata Zombana, Tucumã, Tananga,
Caboclo Nagoriganga, Zimbaruê.
Outras famílias de encantados: Família do Juncal, de origem austríaca;
Família dos Botos; Família dos Marinheiros, cujo emblema é uma âncora e um
tubarão; Família das Caravelas, que são peixes do oceano e não devem ser
confundidos com a embarcação; Família da Mata, à qual pertencem muitos
caboclos cultuados também na umbanda, como Caboclo Pena Branca, Cabocla
Jacira, Cabocla Jussara, Sultão das Matas, Caboclinho da Mata, Caboclo Zuri
e Cabocla Guaraciara.